Paradoxo Visceral
domingo, 28 de novembro de 2010
Hipocrisia intelectualóide carioca contemporânea
Todo mundo tão politicamente implicado via internet. Que bonitinho. O engraçado é que boa parte dessas pessoas tão indignadas e cheias de opniões sobre a situação do Rio são as mesmas que fazem piadinhas sobre negros, sobre nordestinos, sobre gays... Ou seja, que reproduzem a lógica da sub-raça, a lógica do repúdio à diversidade, que é a lógica que legitima a manutençao de um modo social no qual elas podem ter suas empregadas domésticas, dizer que estas "são da família" e vibrar com o brado uníssono de bandido bom é bandido morto.
sábado, 25 de setembro de 2010
Jiddu Krishnamurti
"Ó mundo,
Em toda a parte buscas a Felicidade.
Em todos os climas,
Entre todas as pessoas,
Entre os animais e entre as verdes árvores,
À margem das águas turbulentas,
Nas montanhas altaneiras,
Nos refrescantes vales
E nas terras crestadas de sol,
Sob o céu sereno e estrelado,
No esplendor do sol poente,
No frescor da madrugada -
Todas as coisas buscam essa
Felicidade.
Ainda que teus filhos cerquem seus domínios
De impenetráveis muralhas,
Vedando o acesso à Felicidade desejada,
Ainda que teus doutos sacerdotes lutem
Em defesa dos deuses que mandam adorar,
Ainda que o conforto dos ricos lhes dê a estagnação,
Ainda que os oprimidos e exploradores estejam a sofrer,
Ainda que o pensador não tenha encontrado a solução final,
Ainda que o sannyasi , renunciando ao mundo, não tenha alcançado a Iluminação,
Ainda que o mendigo, implorando compaixão de casa em casa, não tenha achado agasalho,
Ainda que teus filhos prefiram a escuridão da noite à luz do dia,
E convertam a noite em dia -
Todos estão buscando aquela perene Ventura
Como a árvore desolada sofre e anseia pela primavera e seu alegre verdor,
Assim todos os teus filhos buscam aquela Bem-aventurança.
A dama mundana, apegada a seu luxo e riquezas,
A mulher do rosto pintado,
A donzela leviana,
O homem que nos trajos busca a satisfação,
O bebedor insaciável,
O indivíduo que só se sente bem com alguma ocupação,
Aquele que mata para deleitar-se,
O sacerdote de vestes pomposas,
O homem cingido de simples tanga,
O ator vestido ao gosto dos espectadores,
O artista a lutar por criar,
O poeta a exprimir em palavras a imensidade de seus pensamentos e sonhos,
O músico cuja alma vibra aos sons,
O santo com seu ascetismo,
O pecador, se existe, esquecido de Deus ou do homem,
O burguês, de tudo amedrontado -
Todos almejam a Felicidade.
Eles compram e vendem,
E constroem palácios magníficos,
Cercam-se de toda a beleza
Que o dinheiro pode comprar,
Plantam jardins, para regalo de seus gostos requintados,
Cobrem-se de jóias,
Ora disputam, ora se mostram cordiais,
Bebem sem comedimento,
Comem sem moderação,
Ora rancorosos, ora pacíficos,
Rezam e amaldiçoam,
Amam e odeiam,
Morrem e tornam a nascer,
São cruéis para com o homem e o bruto,
Destroem e criam,
Constroem e destroem -
Mas todos estão buscando a Felicidade,
Felicidade nas coisas transitórias.
A rosa, tão bela e gloriosa,
Está destinada
A morrer amanhã.
Em busca da Felicidade,
Erguem-se soberbas estruturas,
Chamam-nas igrejas
E nelas entram,
Mas a Felicidade lhes foge, tal como nas ruas desadornadas.
Inventam um Deus, para terem satisfação,
Mas, Nele nunca encontram aquilo a que aspiram.
O incenso, as flores, as velas acesas,
As vestes esplêndidas, a música empolgante,
São meros estímulos àquela busca,
A nota profunda do sino distante,
A oração monótona,
Os apelos, prantos e rogos,
São meros tateios no escuro
Em busca daquela Felicidade eterna.
Em busca da felicidade,
Edificam templos frios, gigantescos,
Produtos de muitas mentes,
Trabalho de muitas mãos;
Os cânticos, o fumo da cânfora queimada,
A beleza do lótus sagrado
Não satisfazem seus anseios.
Desejando ser felizes,
Subornam e corrompem, profanam
A Terra, os mares e montanhas.
Suas imagens esculpidas não respondem a seus chamados.
Como a enxurrada se precipita da montanha, tudo devastando em seu caminho,
Assim, num instante, é destruída sua estrutura de felicidade;
Com seu amor ciumento, mutuamente se destroem.
Em busca da Felicidade
Conferem títulos e nomes sonorosos
Uns aos outros
E pensam ter encontrado
A fonte da Eternidade,
Pensam ter resolvido
O problema de seu sofrimento.
Procurando a constante satisfação,
Casam-se e inebriam-se desta nova felicidade;
São felizes como a flor,
Que se abre ao sol,
Para com o sol morrer.
Trocam de amor, para renovar seus deleites.
Transbordam
De êxtase e,
Num instante,
A desdita é o epílogo de sua fugaz alegria.
Como a nuvem pesada, que se fende e esgota
E desaparece dos ares,
Deixando o céu outra vez desnudo,
Assim é seu amor,
Que é rico e forte,
Que cria e destroi.
Seu amor, tão triunfante ao nascer,
Tão ardoroso em seus desejos,
Tão belo em pleno florescer,
Tão irrefreável em seu preenchimento,
Fenece como a folha,
Para renascer e,
Como a folha,
De novo morrer.
Como a árvore tristonha
Que perdeu sua ridente folhagem,
Assim é o homem
Que buscou a Felicidade
No amor.
Na solidão,
E nas ruas apinhadas,
Busca-se a Felicidade.
Todo o mundo clama por ela.
As brisas sussurram,
As procelas rugem ameaças,
Mas o homem procura ser feliz.
Nas coisas passageiras,
Nas coisas transitórias,
Naquilo que podem tocar e ver,
E geme e lamenta a perda de sua felicidade,
Como a criança chora
A boneca quebrada.
Porque sua felicidade, como a tenra folha, murcha e morre.
Investiga suas esperanças,
Seus anseios,
Seus desejos,
Seu egoísmo,
Suas disputas e zangas,
Seus títulos de nobreza,
Suas ambições,
Suas glórias,
Suas recompensas,
Suas distinções -
E encontrarás desilusão,
Vaidade,
Infelicidade.
Observa suas distinções de classes,
Suas distinções espirituais,
Suas limitações,
Sua vulnerabilidade,
Seus preceitos,
Seus afetos -
Encontrarás inconstância de propósitos,
Inconstância de felicidade.
Aonde quer que olhes,
Onde quer que andes,
Em qualquer clima que habites,
Há sofrimento, há dor,
Vácuos impreenchíveis,
Feridas abertas e doloridas,
Descobertas e expostas,
Ou cobertas com a armadura
De festivos folguedos.
Nenhum homem pode dizer:
“Minha felicidade é indestrutível”.
Em toda a parte há declínio e morte,
E a renovação da vida.
Assim são os que buscam a felicidade nas coisas transitórias -
Sua felicidade é coisa momentânea,
Como a borboleta que prova o mel de todas as flores
E, no mesmo dia,
Morre.
Como o deserto que recebe abundantes chuvas
Mas permanece terra desolada e sem sombras,
Assim é sua felicidade.
Como as areias do mar são suas ações
Na busca da Felicidade.
Como a árvore velha e possante,
Sobranceira às outras, ao céu se eleva,
Mas sucumbe aos golpes do machado,
Assim é sua felicidade.
Felicidade buscam
No que é transitório,
Fugidio,
Objetivo,
E não a encontram.
Assim é sua felicidade, que logo se acaba sem satisfazer.
Pode-se cultivar em areia a árvore da Felicidade?
A Felicidade que nunca se gasta,
Que cresce com a ação,
Que aumenta com o sentimento,
Que nasce da Verdade,
Que jamais declina,
Que não conhece nem fim,
Que é livre,
A Felicidade Eterna
Que eles jamais provaram.
Felicidade
Que não conhece solidão,
Que é certeza imensa,
Que é desapego,
Que é amor impessoal
Que é livre de preconceitos,
Que não depende de tradição,
De autoridade,
De superstições,
De nenhuma religião,
A Felicidade não subordinada a outrem,
nenhum sacerdote,
Nenhuma seita,
Que não necessita de títulos,
Que a nenhuma lei está sujeita,
Que não pode ser abalada por nenhum Deus ou homem,
Que é solitária e tudo abarca,
Que sopra das montanhas nevadas,
Que sopra do deserto adusto,
Que arde,
Que cura,
Que destrói,
Que cria,
Que se alegra na solidão e na multidão,
Que preenche a alma para toda a Eternidade,
Que é Deus,
Que é esposa, a mãe,
marido, o pai,
O filho.
Que de nenhuma classe é,
Porém da divina aristocracia,
Que é a suma purificação,
Que é sua própria filosofia,
Vasta como os mares,
Ampla como os céus,
Profunda como o lago,
Tranqüila como o vale silencioso,
Serena como a montanha,
Livre da sombra da morte,
Da limitação do nascer,
Que é a consumação de todos os desejos,
A suma Finalidade,
A fonte de toda existência,
O poço cujas águas nutrem os mundos,
O êxtase, a alegria de nosso ser,
Que dá o divino descontentamento,
Que nasce da Eternidade,
Que é a destruição do ego,
O reservatório da Sabedoria,
Que torna outros felizes,
Que tem domínio sobre todas as coisas -
Porque de outrem recebestes tua nutrição
Ensinado foste pelos lábios de outrem,
Aprendeste a tirar tua força de outrem,
Que tua felicidade depende de outrem,
A sabedoria da boca de outrem,
Que a Verdade só é alcançável através de outrem,
Ensinaram-te a adorar o Deus de outrem,
A prostrar-te ante o altar de outrem,
Disciplinar-te sob a autoridade de outrem,
Moldar-te segundo o modelo de outrem,
Crescer sob a proteção de outrem,
Ouvir com os ouvidos de outrem,
A basear tuas opiniões nas de outrem,
Ouvir com os ouvidos de outrem,
Sentir com o coração de outrem,
Pensar com a mente de outrem.
Nutrido fostes do estímulo das coisas transitórias,
Do alimento que nunca satisfaz,
Do saber que desaparece, da luta.
Nutrido foste pelas mãos dos satisfeitos,
Com o que é falso e efêmero.
Foste nutrido pelas leis, pelos governos, pelas filosofias,
Dirigido, impelido e influenciado,
Abrigado foste na sombra
Que a todo instante muda,
Nutrido de falsa verdades e falsos deuses,
Estimulado por falsos desejos,
Alimentado de falsas ambições,
Sustentado com os frutos da terra,
Ó mundo!
Ensinaram-te a buscar a Verdade no que é passageiro
E te nutriste de coisas transitórias;
Nesta jamais encontrarás a Felicidade
Pela qual tua alma anseia e sofre.
Mas,
Como um mergulhador que desce ao fundo do mar,
Em busca da pérola,
Arriscando a vida pelo gozo transitório,
Deves tu também penetrar fundo em ti mesmo,
Em busca da Eternidade.
Como o audaz alpinista, que escala e conquista os altos cumes,
vertiginosa
De onde todas as coisas são vistas em suas verdadeiras proporções.
Como o lótus que, rompendo o lodo, ao céu se eleva,
Deves tu também arredar todas as coisas transitórias,
Se queres descobrir aquele Reino da Felicidade.
Como a árvore majestosa, cuja força depende de suas raízes
E alegremente enfrenta os vendavais,
Deves tu também assentar profundamente em ti mesmo
Tua força oculta,
Para enfrentar as vicissitudes do mundo.
Como a rápida corrente conhece a sua nascente,
Deves tu também conhecer teu próprio ser.
Como manso lago azul de ignota profundidade,
Deve ser insondável a tua profundeza.
Como o mar encerra uma multidão de seres vivos,
Em ti jazem ocultos segredos de todos os mundos.
Como na encosta da montanha,
Em altitudes várias, diferentes flores crescem,
Assim também em ti existem
Gradações de beleza.
Como a terra em seu seio abriga
Tesouros que o homem jamais viu,
Em ti jazem ocultos ignorados segredos.
Como a imensa e inesgotável força dos ventos,
Em ti reside imensa e inesquecível energia.
Como os cumes das montanhas alegrados ao sol,
Deves tu exultar
Na Luz do conhecimento de ti mesmo.
Como a trilha tortuosa da montanha descortina a cada instante vistas novas,
Assim também em ti há uma revelação constante.
Como a estrela remota a cintilar em noite escura,
É aquele que descobriu a si próprio.
Só em ti se encontra Deus, pois outro Deus não existe,
És o Deus que todas as religiões e nações adoram,
Só em ti há alegria, êxtase, energia e força,
Só em ti existe o poder de crescer, mudar, alterar,
Só em ti se encontram acumuladas as experiências de muitas idades,
Só em ti, a fonte de todas as coisas -
Amor, ódio, ciúme, medo, furor e brandura -
Só em ti se encerra o poder de criar e destruir,
Só em ti, o começo de todo pensamento, sentimento e ação.
Só em ti reside a nobreza,
Só em ti não há solidão.
De todas as coisas és senhor,
De todas as coisas, a fonte.
Só em ti reside o poder de fazer bem e fazer o mal,
Só em ti, o poder de criar o Céu e o Inferno,
Só em ti, o poder de reger o futuro e o presente.
És senhor do Tempo,
Só em ti está o Reino da Felicidade,
Só em ti se encontra a Verdade Eterna,
Só em ti existe a fonte inesgotável do amor.
Ó mundo,
Se queres conhecer todos os segredos,
Os tesouros de muitas idades,
As experiências de muitos séculos,
A força acumulada de muitas gerações,
O pensamento do passado,
Os êxtases e alegrias, as tristezas e dores de passadas eras,
E as grandes e fúteis ações das muitas vidas que para trás deixaste,
Os séculos de incerteza e de dúvida,
Se queres conhecer o futuro imenso,
A jubilosa ascensão a sublimes alturas.
A aventura do bem e do mal,
O produto de todo pensamento, de todos os sentimentos e ações,
Das diversas vidas, passadas e futuras,
Se queres conhecer teus ódios, teus ciúmes,
Tuas agonias, teus prazeres e dores,
Teu amor extático, teu ditoso enlevo,
Tua ardente devoção, teu borbulhante entusiasmo,
Teu eficiente zelo, teu culto doloroso,
Tua incontida adoração,
Se queres conhecer o perdurável,
O eterno, o indestrutível,
A Divindade, a Imortalidade,
A Sabedoria, que é o tesouro do Céu,
Se queres conhecer o eterno Reino da Felicidade,
A Beleza que nunca se desvanece ou declina,
Se queres conhecer a Verdade imperecível e única -
Então ó mundo,
Perscruta tuas próprias profundezas
Com olhos límpidos - se queres perceber todas as coisas.
Como o lago tranqüilo que reflete o céu,
Assim deverão todas as coisas em ti se refletir.
Como a flor que desabrocha à branda luz do sol
Deves tu te abrir, se te queres conhecer.
Como a águia aos ares se alça incontida e livre,
Deves tu ascender, se te queres conhecer.
Como o rio desce alegre para o mar,
Deves tu alegrar-te, se te queres conhecer.
À montanha forte e pujante
Deves igualar-te, se te queres conhecer.
Como a gema que cintila ao sol,
Deves tu cintilar, se te queres conhecer.
Como a mãe que o filho aconchega com terna afeição,
Assim deves ser, se te queres conhecer.
Como os ventos são livres, e nada os entrava,
Assim deves ser, se te queres conhecer.
Se de todas as coisas queres provar,
Ó mundo,
E comigo entrar no Reino da Felicidade,
Livra-te deste veneno que corrompe a Verdade -
O preconceito.
Porque és imenso em teus preconceitos,
Tanto velhos como novos.
Livra-te da estreiteza de tuas tradições,
Convenções, hábitos, sentimentos e pensamentos,
Da estreiteza de tua religião, de teu culto e adoração,
De teu nacionalismo,
De teu lar e teu sentimento de posse,
De teu amor, de tua amizade,
De teu Deus e da maneira de o venerares,
De tua concepção da beleza,
De tuas ocupações e deveres,
De teus feitos e glórias;
Da estreiteza de tuas recompensas e punições,
De teus desejos, ambições e fins,
De teus anseios e satisfações,
De teus contentamentos e descontentamentos,
De tuas lutas e vitórias,
Da tua ignorância e de teu saber,
De tuas doutrinas e leis,
De tuas idéias e opiniões -
De tudo isso - livra-te!
O preconceito é como a sombra
No flanco da montanha,
Como a nuvem negra
No céu límpido,
Como a rosa que murchou
E já não deleita o mundo,
Como a praga que destrói
A seiva que amadurece o fruto.
Como a ave que se perdeu
O vigor de suas asas,
Como o homem que não tem ouvidos
E é surdo para a música melodiosa,
Como o homem que não tem olhos
E é cego para o esplendor do crepúsculo,
Como as sensações deleitosas
Para o homem sem vigor.
O preconceito é como o lago agitado,
Que não reflete a beleza do céu,
Como a rocha nua da montanha,
Como a terra árida de uma região sem sombras,
Como o leito seco do rio,
Há muitos verões privado do frescor das águas,
Como a árvore
Que perdeu a felicidade de seu verdor,
Como a mulher estéril,
Como o sopro do inverno
Que mirra todas as coisas,
Como a sombra da morte
Sobre uma fértil região.
O preconceito é mau,
Corruptor do mundo,
Destruidor do belo,
Raiz de todas as desditas,
Medra na ignorância,
É um estado de total escuridão, impenetrável à luz.
É abominação,
Pecado contra a Verdade.
Se te queres conhecer,
Livra-te dessa erva daninha que te enleia,
Te sufoca,
Te destrói a visão,
Te mata a afeição,
Te tolhe o pensamento.
Quando livre fores, sem peias,
Teu corpo bem controlado, sem tensão nenhuma,
Teus olhos capazes de todas as coisas perceber em sua pura nudez,
Teu coração sereno e rico de afeição,
Tua mente bem equilibrada,
Então, ó mundo,
Os portões daquele Jardim,
Do Reino da Felicidade,
Estarão abertos."
(extrato de "A busca")
Em toda a parte buscas a Felicidade.
Em todos os climas,
Entre todas as pessoas,
Entre os animais e entre as verdes árvores,
À margem das águas turbulentas,
Nas montanhas altaneiras,
Nos refrescantes vales
E nas terras crestadas de sol,
Sob o céu sereno e estrelado,
No esplendor do sol poente,
No frescor da madrugada -
Todas as coisas buscam essa
Felicidade.
Ainda que teus filhos cerquem seus domínios
De impenetráveis muralhas,
Vedando o acesso à Felicidade desejada,
Ainda que teus doutos sacerdotes lutem
Em defesa dos deuses que mandam adorar,
Ainda que o conforto dos ricos lhes dê a estagnação,
Ainda que os oprimidos e exploradores estejam a sofrer,
Ainda que o pensador não tenha encontrado a solução final,
Ainda que o sannyasi , renunciando ao mundo, não tenha alcançado a Iluminação,
Ainda que o mendigo, implorando compaixão de casa em casa, não tenha achado agasalho,
Ainda que teus filhos prefiram a escuridão da noite à luz do dia,
E convertam a noite em dia -
Todos estão buscando aquela perene Ventura
Como a árvore desolada sofre e anseia pela primavera e seu alegre verdor,
Assim todos os teus filhos buscam aquela Bem-aventurança.
A dama mundana, apegada a seu luxo e riquezas,
A mulher do rosto pintado,
A donzela leviana,
O homem que nos trajos busca a satisfação,
O bebedor insaciável,
O indivíduo que só se sente bem com alguma ocupação,
Aquele que mata para deleitar-se,
O sacerdote de vestes pomposas,
O homem cingido de simples tanga,
O ator vestido ao gosto dos espectadores,
O artista a lutar por criar,
O poeta a exprimir em palavras a imensidade de seus pensamentos e sonhos,
O músico cuja alma vibra aos sons,
O santo com seu ascetismo,
O pecador, se existe, esquecido de Deus ou do homem,
O burguês, de tudo amedrontado -
Todos almejam a Felicidade.
Eles compram e vendem,
E constroem palácios magníficos,
Cercam-se de toda a beleza
Que o dinheiro pode comprar,
Plantam jardins, para regalo de seus gostos requintados,
Cobrem-se de jóias,
Ora disputam, ora se mostram cordiais,
Bebem sem comedimento,
Comem sem moderação,
Ora rancorosos, ora pacíficos,
Rezam e amaldiçoam,
Amam e odeiam,
Morrem e tornam a nascer,
São cruéis para com o homem e o bruto,
Destroem e criam,
Constroem e destroem -
Mas todos estão buscando a Felicidade,
Felicidade nas coisas transitórias.
A rosa, tão bela e gloriosa,
Está destinada
A morrer amanhã.
Em busca da Felicidade,
Erguem-se soberbas estruturas,
Chamam-nas igrejas
E nelas entram,
Mas a Felicidade lhes foge, tal como nas ruas desadornadas.
Inventam um Deus, para terem satisfação,
Mas, Nele nunca encontram aquilo a que aspiram.
O incenso, as flores, as velas acesas,
As vestes esplêndidas, a música empolgante,
São meros estímulos àquela busca,
A nota profunda do sino distante,
A oração monótona,
Os apelos, prantos e rogos,
São meros tateios no escuro
Em busca daquela Felicidade eterna.
Em busca da felicidade,
Edificam templos frios, gigantescos,
Produtos de muitas mentes,
Trabalho de muitas mãos;
Os cânticos, o fumo da cânfora queimada,
A beleza do lótus sagrado
Não satisfazem seus anseios.
Desejando ser felizes,
Subornam e corrompem, profanam
A Terra, os mares e montanhas.
Suas imagens esculpidas não respondem a seus chamados.
Como a enxurrada se precipita da montanha, tudo devastando em seu caminho,
Assim, num instante, é destruída sua estrutura de felicidade;
Com seu amor ciumento, mutuamente se destroem.
Em busca da Felicidade
Conferem títulos e nomes sonorosos
Uns aos outros
E pensam ter encontrado
A fonte da Eternidade,
Pensam ter resolvido
O problema de seu sofrimento.
Procurando a constante satisfação,
Casam-se e inebriam-se desta nova felicidade;
São felizes como a flor,
Que se abre ao sol,
Para com o sol morrer.
Trocam de amor, para renovar seus deleites.
Transbordam
De êxtase e,
Num instante,
A desdita é o epílogo de sua fugaz alegria.
Como a nuvem pesada, que se fende e esgota
E desaparece dos ares,
Deixando o céu outra vez desnudo,
Assim é seu amor,
Que é rico e forte,
Que cria e destroi.
Seu amor, tão triunfante ao nascer,
Tão ardoroso em seus desejos,
Tão belo em pleno florescer,
Tão irrefreável em seu preenchimento,
Fenece como a folha,
Para renascer e,
Como a folha,
De novo morrer.
Como a árvore tristonha
Que perdeu sua ridente folhagem,
Assim é o homem
Que buscou a Felicidade
No amor.
Na solidão,
E nas ruas apinhadas,
Busca-se a Felicidade.
Todo o mundo clama por ela.
As brisas sussurram,
As procelas rugem ameaças,
Mas o homem procura ser feliz.
Nas coisas passageiras,
Nas coisas transitórias,
Naquilo que podem tocar e ver,
E geme e lamenta a perda de sua felicidade,
Como a criança chora
A boneca quebrada.
Porque sua felicidade, como a tenra folha, murcha e morre.
Investiga suas esperanças,
Seus anseios,
Seus desejos,
Seu egoísmo,
Suas disputas e zangas,
Seus títulos de nobreza,
Suas ambições,
Suas glórias,
Suas recompensas,
Suas distinções -
E encontrarás desilusão,
Vaidade,
Infelicidade.
Observa suas distinções de classes,
Suas distinções espirituais,
Suas limitações,
Sua vulnerabilidade,
Seus preceitos,
Seus afetos -
Encontrarás inconstância de propósitos,
Inconstância de felicidade.
Aonde quer que olhes,
Onde quer que andes,
Em qualquer clima que habites,
Há sofrimento, há dor,
Vácuos impreenchíveis,
Feridas abertas e doloridas,
Descobertas e expostas,
Ou cobertas com a armadura
De festivos folguedos.
Nenhum homem pode dizer:
“Minha felicidade é indestrutível”.
Em toda a parte há declínio e morte,
E a renovação da vida.
Assim são os que buscam a felicidade nas coisas transitórias -
Sua felicidade é coisa momentânea,
Como a borboleta que prova o mel de todas as flores
E, no mesmo dia,
Morre.
Como o deserto que recebe abundantes chuvas
Mas permanece terra desolada e sem sombras,
Assim é sua felicidade.
Como as areias do mar são suas ações
Na busca da Felicidade.
Como a árvore velha e possante,
Sobranceira às outras, ao céu se eleva,
Mas sucumbe aos golpes do machado,
Assim é sua felicidade.
Felicidade buscam
No que é transitório,
Fugidio,
Objetivo,
E não a encontram.
Assim é sua felicidade, que logo se acaba sem satisfazer.
Pode-se cultivar em areia a árvore da Felicidade?
A Felicidade que nunca se gasta,
Que cresce com a ação,
Que aumenta com o sentimento,
Que nasce da Verdade,
Que jamais declina,
Que não conhece nem fim,
Que é livre,
A Felicidade Eterna
Que eles jamais provaram.
Felicidade
Que não conhece solidão,
Que é certeza imensa,
Que é desapego,
Que é amor impessoal
Que é livre de preconceitos,
Que não depende de tradição,
De autoridade,
De superstições,
De nenhuma religião,
A Felicidade não subordinada a outrem,
nenhum sacerdote,
Nenhuma seita,
Que não necessita de títulos,
Que a nenhuma lei está sujeita,
Que não pode ser abalada por nenhum Deus ou homem,
Que é solitária e tudo abarca,
Que sopra das montanhas nevadas,
Que sopra do deserto adusto,
Que arde,
Que cura,
Que destrói,
Que cria,
Que se alegra na solidão e na multidão,
Que preenche a alma para toda a Eternidade,
Que é Deus,
Que é esposa, a mãe,
marido, o pai,
O filho.
Que de nenhuma classe é,
Porém da divina aristocracia,
Que é a suma purificação,
Que é sua própria filosofia,
Vasta como os mares,
Ampla como os céus,
Profunda como o lago,
Tranqüila como o vale silencioso,
Serena como a montanha,
Livre da sombra da morte,
Da limitação do nascer,
Que é a consumação de todos os desejos,
A suma Finalidade,
A fonte de toda existência,
O poço cujas águas nutrem os mundos,
O êxtase, a alegria de nosso ser,
Que dá o divino descontentamento,
Que nasce da Eternidade,
Que é a destruição do ego,
O reservatório da Sabedoria,
Que torna outros felizes,
Que tem domínio sobre todas as coisas -
Porque de outrem recebestes tua nutrição
Ensinado foste pelos lábios de outrem,
Aprendeste a tirar tua força de outrem,
Que tua felicidade depende de outrem,
A sabedoria da boca de outrem,
Que a Verdade só é alcançável através de outrem,
Ensinaram-te a adorar o Deus de outrem,
A prostrar-te ante o altar de outrem,
Disciplinar-te sob a autoridade de outrem,
Moldar-te segundo o modelo de outrem,
Crescer sob a proteção de outrem,
Ouvir com os ouvidos de outrem,
A basear tuas opiniões nas de outrem,
Ouvir com os ouvidos de outrem,
Sentir com o coração de outrem,
Pensar com a mente de outrem.
Nutrido fostes do estímulo das coisas transitórias,
Do alimento que nunca satisfaz,
Do saber que desaparece, da luta.
Nutrido foste pelas mãos dos satisfeitos,
Com o que é falso e efêmero.
Foste nutrido pelas leis, pelos governos, pelas filosofias,
Dirigido, impelido e influenciado,
Abrigado foste na sombra
Que a todo instante muda,
Nutrido de falsa verdades e falsos deuses,
Estimulado por falsos desejos,
Alimentado de falsas ambições,
Sustentado com os frutos da terra,
Ó mundo!
Ensinaram-te a buscar a Verdade no que é passageiro
E te nutriste de coisas transitórias;
Nesta jamais encontrarás a Felicidade
Pela qual tua alma anseia e sofre.
Mas,
Como um mergulhador que desce ao fundo do mar,
Em busca da pérola,
Arriscando a vida pelo gozo transitório,
Deves tu também penetrar fundo em ti mesmo,
Em busca da Eternidade.
Como o audaz alpinista, que escala e conquista os altos cumes,
vertiginosa
De onde todas as coisas são vistas em suas verdadeiras proporções.
Como o lótus que, rompendo o lodo, ao céu se eleva,
Deves tu também arredar todas as coisas transitórias,
Se queres descobrir aquele Reino da Felicidade.
Como a árvore majestosa, cuja força depende de suas raízes
E alegremente enfrenta os vendavais,
Deves tu também assentar profundamente em ti mesmo
Tua força oculta,
Para enfrentar as vicissitudes do mundo.
Como a rápida corrente conhece a sua nascente,
Deves tu também conhecer teu próprio ser.
Como manso lago azul de ignota profundidade,
Deve ser insondável a tua profundeza.
Como o mar encerra uma multidão de seres vivos,
Em ti jazem ocultos segredos de todos os mundos.
Como na encosta da montanha,
Em altitudes várias, diferentes flores crescem,
Assim também em ti existem
Gradações de beleza.
Como a terra em seu seio abriga
Tesouros que o homem jamais viu,
Em ti jazem ocultos ignorados segredos.
Como a imensa e inesgotável força dos ventos,
Em ti reside imensa e inesquecível energia.
Como os cumes das montanhas alegrados ao sol,
Deves tu exultar
Na Luz do conhecimento de ti mesmo.
Como a trilha tortuosa da montanha descortina a cada instante vistas novas,
Assim também em ti há uma revelação constante.
Como a estrela remota a cintilar em noite escura,
É aquele que descobriu a si próprio.
Só em ti se encontra Deus, pois outro Deus não existe,
És o Deus que todas as religiões e nações adoram,
Só em ti há alegria, êxtase, energia e força,
Só em ti existe o poder de crescer, mudar, alterar,
Só em ti se encontram acumuladas as experiências de muitas idades,
Só em ti, a fonte de todas as coisas -
Amor, ódio, ciúme, medo, furor e brandura -
Só em ti se encerra o poder de criar e destruir,
Só em ti, o começo de todo pensamento, sentimento e ação.
Só em ti reside a nobreza,
Só em ti não há solidão.
De todas as coisas és senhor,
De todas as coisas, a fonte.
Só em ti reside o poder de fazer bem e fazer o mal,
Só em ti, o poder de criar o Céu e o Inferno,
Só em ti, o poder de reger o futuro e o presente.
És senhor do Tempo,
Só em ti está o Reino da Felicidade,
Só em ti se encontra a Verdade Eterna,
Só em ti existe a fonte inesgotável do amor.
Ó mundo,
Se queres conhecer todos os segredos,
Os tesouros de muitas idades,
As experiências de muitos séculos,
A força acumulada de muitas gerações,
O pensamento do passado,
Os êxtases e alegrias, as tristezas e dores de passadas eras,
E as grandes e fúteis ações das muitas vidas que para trás deixaste,
Os séculos de incerteza e de dúvida,
Se queres conhecer o futuro imenso,
A jubilosa ascensão a sublimes alturas.
A aventura do bem e do mal,
O produto de todo pensamento, de todos os sentimentos e ações,
Das diversas vidas, passadas e futuras,
Se queres conhecer teus ódios, teus ciúmes,
Tuas agonias, teus prazeres e dores,
Teu amor extático, teu ditoso enlevo,
Tua ardente devoção, teu borbulhante entusiasmo,
Teu eficiente zelo, teu culto doloroso,
Tua incontida adoração,
Se queres conhecer o perdurável,
O eterno, o indestrutível,
A Divindade, a Imortalidade,
A Sabedoria, que é o tesouro do Céu,
Se queres conhecer o eterno Reino da Felicidade,
A Beleza que nunca se desvanece ou declina,
Se queres conhecer a Verdade imperecível e única -
Então ó mundo,
Perscruta tuas próprias profundezas
Com olhos límpidos - se queres perceber todas as coisas.
Como o lago tranqüilo que reflete o céu,
Assim deverão todas as coisas em ti se refletir.
Como a flor que desabrocha à branda luz do sol
Deves tu te abrir, se te queres conhecer.
Como a águia aos ares se alça incontida e livre,
Deves tu ascender, se te queres conhecer.
Como o rio desce alegre para o mar,
Deves tu alegrar-te, se te queres conhecer.
À montanha forte e pujante
Deves igualar-te, se te queres conhecer.
Como a gema que cintila ao sol,
Deves tu cintilar, se te queres conhecer.
Como a mãe que o filho aconchega com terna afeição,
Assim deves ser, se te queres conhecer.
Como os ventos são livres, e nada os entrava,
Assim deves ser, se te queres conhecer.
Se de todas as coisas queres provar,
Ó mundo,
E comigo entrar no Reino da Felicidade,
Livra-te deste veneno que corrompe a Verdade -
O preconceito.
Porque és imenso em teus preconceitos,
Tanto velhos como novos.
Livra-te da estreiteza de tuas tradições,
Convenções, hábitos, sentimentos e pensamentos,
Da estreiteza de tua religião, de teu culto e adoração,
De teu nacionalismo,
De teu lar e teu sentimento de posse,
De teu amor, de tua amizade,
De teu Deus e da maneira de o venerares,
De tua concepção da beleza,
De tuas ocupações e deveres,
De teus feitos e glórias;
Da estreiteza de tuas recompensas e punições,
De teus desejos, ambições e fins,
De teus anseios e satisfações,
De teus contentamentos e descontentamentos,
De tuas lutas e vitórias,
Da tua ignorância e de teu saber,
De tuas doutrinas e leis,
De tuas idéias e opiniões -
De tudo isso - livra-te!
O preconceito é como a sombra
No flanco da montanha,
Como a nuvem negra
No céu límpido,
Como a rosa que murchou
E já não deleita o mundo,
Como a praga que destrói
A seiva que amadurece o fruto.
Como a ave que se perdeu
O vigor de suas asas,
Como o homem que não tem ouvidos
E é surdo para a música melodiosa,
Como o homem que não tem olhos
E é cego para o esplendor do crepúsculo,
Como as sensações deleitosas
Para o homem sem vigor.
O preconceito é como o lago agitado,
Que não reflete a beleza do céu,
Como a rocha nua da montanha,
Como a terra árida de uma região sem sombras,
Como o leito seco do rio,
Há muitos verões privado do frescor das águas,
Como a árvore
Que perdeu a felicidade de seu verdor,
Como a mulher estéril,
Como o sopro do inverno
Que mirra todas as coisas,
Como a sombra da morte
Sobre uma fértil região.
O preconceito é mau,
Corruptor do mundo,
Destruidor do belo,
Raiz de todas as desditas,
Medra na ignorância,
É um estado de total escuridão, impenetrável à luz.
É abominação,
Pecado contra a Verdade.
Se te queres conhecer,
Livra-te dessa erva daninha que te enleia,
Te sufoca,
Te destrói a visão,
Te mata a afeição,
Te tolhe o pensamento.
Quando livre fores, sem peias,
Teu corpo bem controlado, sem tensão nenhuma,
Teus olhos capazes de todas as coisas perceber em sua pura nudez,
Teu coração sereno e rico de afeição,
Tua mente bem equilibrada,
Então, ó mundo,
Os portões daquele Jardim,
Do Reino da Felicidade,
Estarão abertos."
(extrato de "A busca")
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Killing Machine
Quando cheguei ao shopping fui direto ao caixa eletrônico. Eu devia ser o quinto da fila mais ou menos. Chegou a vez de um cara que tinha por volta de trinta e seis, trinta e sete anos, semblante tenso, usava uma camisa branca, óculos, tinha barba por fazer e pele branca. Ele inseriu o cartão, esperou e nada. De novo, inseriu, esperou e... nada. Fez uma cara de “puta que pariu”, mas um “puta que pariu” contido. Recomeçou o processo. Depois de ter feito isso umas vinte vezes começou a se instalar um mal-estar entre as pessoas na fila e a sensação que eu tinha era que se ninguém fizesse nada ele ficaria tranquilamente umas duas horas ali masturbando o caixa eletrônico com aquela cara de “puta que pariu” contido.
Assumi a responsa. Fui até o cara – cujas expressões de tensão à flor da pele já denunciavam a iminência da crise/combate – e falei: “Dá licença, amigo. Já que você não está conseguindo, tem como você esperar ao lado do caixa enquanto duas pessoas tentam?”. Ao que este homenzinho respondeu em tom rude: “Meu amigo, o problema é o seguinte: não é meu cartão que está ruim é a máquina. Eu fiquei esperando vinte minutos.”.
Enquanto eu tentava propor algo próximo a um meio termo entre a vontade dele e a das pessoas na fila, ele deixava claro que se ele esperou vinte minutos todos deveriam esperar.
Depois de dizer isso, o homenzinho saiu deste caixa – que, aliás, era o único com saques disponíveis – e foi tentar tirar extrato ou algo do tipo no último caixa. Daí o próximo da fila colocou seu cartão e conseguiu sacar sem problemas. Antes de chegar a minha vez o homenzinho saiu da máquina com o semblante de quem camuflava a iminência de um enfarte ou de um homicídio, passou por mim, deu três tapas no meu ombro, firmes o suficiente para deixar clara sua vontade de me encher de tiros, mas não o suficiente para configurar agressão, disse: “Tenta lá.”; e desceu a escada rolante.
Chegada a minha vez consegui sacar sem problemas. Desci a escada rolante, andei alguns metros e para minha surpresa vejo uma puta fila no caixa do banco 24 horas e adivinha quem estava masturbando a máquina? O homenzinho. Passei por trás dele, dei-lhe três tapinhas nas costas e disse sorrindo: “Consegui.”. Ele me lançou um olhar de ódio profundo e eu segui meu caminho pensando em como vivemos no automático a maior parte do tempo, como se as pessoas ao redor fossem apenas fantoches coadjuvantes de nossa existência com suas atuações já pré-determinadas, como se cada pessoa não fosse um universo totalmente inexplorado de onde pode surgir todo tipo de coisa.
Assumi a responsa. Fui até o cara – cujas expressões de tensão à flor da pele já denunciavam a iminência da crise/combate – e falei: “Dá licença, amigo. Já que você não está conseguindo, tem como você esperar ao lado do caixa enquanto duas pessoas tentam?”. Ao que este homenzinho respondeu em tom rude: “Meu amigo, o problema é o seguinte: não é meu cartão que está ruim é a máquina. Eu fiquei esperando vinte minutos.”.
Enquanto eu tentava propor algo próximo a um meio termo entre a vontade dele e a das pessoas na fila, ele deixava claro que se ele esperou vinte minutos todos deveriam esperar.
Depois de dizer isso, o homenzinho saiu deste caixa – que, aliás, era o único com saques disponíveis – e foi tentar tirar extrato ou algo do tipo no último caixa. Daí o próximo da fila colocou seu cartão e conseguiu sacar sem problemas. Antes de chegar a minha vez o homenzinho saiu da máquina com o semblante de quem camuflava a iminência de um enfarte ou de um homicídio, passou por mim, deu três tapas no meu ombro, firmes o suficiente para deixar clara sua vontade de me encher de tiros, mas não o suficiente para configurar agressão, disse: “Tenta lá.”; e desceu a escada rolante.
Chegada a minha vez consegui sacar sem problemas. Desci a escada rolante, andei alguns metros e para minha surpresa vejo uma puta fila no caixa do banco 24 horas e adivinha quem estava masturbando a máquina? O homenzinho. Passei por trás dele, dei-lhe três tapinhas nas costas e disse sorrindo: “Consegui.”. Ele me lançou um olhar de ódio profundo e eu segui meu caminho pensando em como vivemos no automático a maior parte do tempo, como se as pessoas ao redor fossem apenas fantoches coadjuvantes de nossa existência com suas atuações já pré-determinadas, como se cada pessoa não fosse um universo totalmente inexplorado de onde pode surgir todo tipo de coisa.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Eternização Paliativa
Hoje re-assisti “efeito borboleta”. E aqui estou na minha eternização. Ao escrever vou me gravando no papel, me gravando no mundo, me eternizando. Deixando minha carcaça pra trás e me fixando no papel. Ilusão. Esse “me” é incapturável, é justamente essa eternefemeridade orgânica da qual a escrita não dá conta. E o acontece no papel é apenas a substancialização de um espelho paliativo diante do qual minha existência se materializa.
domingo, 1 de novembro de 2009
Eu Robô
Era uma vez um pseudo-andróide pós-moderno que começou a apresentar falhas em sua programação e se deu conta de que não é o autômato que sempre acreditou ser. Tal qual Nietzsche com seu poderoso martelo ele demoliu violentamente masmorras e altares. E agora sem aquela armadura cartesiana que o aprisionava o que se vê é um homem, com a leveza e vulnerabilidade próprias de quem tem vísceras no lugar de engrenagens.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Criança de pelúcia
Duas mulheres e duas menininhas ao sol. Uma das menininhas, que mal sabe falar, pede para tirar o vestido (o dia está quente) e a mãe diz: "Olha a fulaninha, ela está de vestido.". Como eu queria que a criança subitamente se tornasse capaz de falar e dissesse: "Foda-se. Quem está sentindo calor sou eu.".
Para essa mãe a criança é como um relógio ou como um animal de estimação. É apenas um adorno de si, ou seja, não importa se a criança está morrendo de calor com tanto que esteja fofinha em seu vestido.
P.S.: Depois de alguns minutos as duas menininhas se amotinaram, abriram o berreiro e conseguiram ter sua reivindicação atendida.
Para essa mãe a criança é como um relógio ou como um animal de estimação. É apenas um adorno de si, ou seja, não importa se a criança está morrendo de calor com tanto que esteja fofinha em seu vestido.
P.S.: Depois de alguns minutos as duas menininhas se amotinaram, abriram o berreiro e conseguiram ter sua reivindicação atendida.
sábado, 5 de setembro de 2009
Pra que serve?
ética-sofismo-cortical-behavior?-fundamentação-onírica-cabelos-sexo-tátil-oral-olhos-pelos-arrepio-orgasmo.
Será que a lógica dá conta de tanto quanto imaginamos? Ou ela apenas constitui uma carapaça oca que nos impede de sentir a puerilidade de nossas certezas?
Será que a lógica dá conta de tanto quanto imaginamos? Ou ela apenas constitui uma carapaça oca que nos impede de sentir a puerilidade de nossas certezas?
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